A geada causa mais danos em lavouras de café irrigadas ou não irrigadas?

10.08.2021 Autor: José Donizeti Alves Fonte: José Donizeti Alves
Entenda importantes conceitos fisiológicos que facilitarão a compreensão da resposta para esse pergunta

O inverno de 2021 já entrou para a história da cafeicultura brasileira por conta das geadas que assolaram o Cerrado, o Sul de Minas Gerais e a Mogiana em São Paulo. Em menos de um mês foram três eventos, sendo a mais severa a da madrugada do dia 20 de julho, fora as ondas de massa fria que não queimaram as lavouras, mas causarão danos adicionais consideráveis. Os levantamentos dos danos, realizados por diferentes órgãos, estimam que as geadas queimaram, em diferentes níveis, cerca de 300.000 ha de café, com previsões de queda na safra de 2022 de até 12,5 milhões, sendo que, em muitas lavouras, os prejuízos serão sentidos ainda nas safras de 2023 e 2024. 


Entre os cafeicultores, a ameaça de novas geadas ainda preocupa, haja vista que estão previstas passagens de frentes frias para este mês de agosto. Em vista disso, muitos produtores adotam diferentes medidas fitotécnicas a fim de amenizar os efeitos da geada em suas lavouras. Uma estratégia utilizada, mas que ainda traz muitas dúvidas sobre sua eficácia é a irrigação, e a seguinte pergunta resume todas elas: a geada causa mais danos em lavouras de café irrigadas ou não irrigadas?   


Antes de responder, convém abordar alguns conceitos que facilitarão a compreensão. De forma bastante simplificada e direta, a geada é um fenômeno que provoca danos ao cafeeiro quando a temperatura do ar cai abaixo de 0°C (que é o ponto de congelamento da água) e uma proporção elevada dos líquidos extra e intracelulares, presentes no interior das folhas, ramos, caule e frutos, muda de estado físico, formando cristais de gelo muito pontiagudos. Nessa condição, os ponteiros dos cristais perfuram as células e organelas, como os cloroplastos (local de onde ocorre a fotossíntese), tendo como consequência a perda do suco celular, provocando os sintomas visíveis das geadas, como desidratação, queima dos tecidos e morte das plantas ou de suas partes. Alternativamente, os líquidos congelados se expandem e, por força do aumento da pressão osmótica, rompem as células causando sua morte. Por fim, a água extracelular normalmente congela e o gelo atrai a água de dentro da célula, desidratando-a até sua morte. 


Se por um lado os cristais de gelo é que causam os danos celulares, evitar o congelamento dos líquidos internos do cafeeiro é uma forma eficiente de prevenção dos estragos que a geada provoca, cortando o mal no seu início. Para tanto, é preciso abaixar o ponto de congelamento da água dentro dos tecidos vegetais, utilizando-se de meios que concentrem a seiva da planta, e uma das estratégias mais eficientes é suspender a irrigação dias antes da geada. Assim, a imposição de um déficit hídrico moderado no cafeeiro mantém os tecidos parcialmente desidratados, de modo que ao aumentar a quantidade de soluto na solução menores temperaturas serão necessárias para solidificar a água e formar os tão temíveis cristais de gelo. No final desse texto, faremos uma exposição de caso mostrando que, em solos saturados de água, os danos das geadas no cafeeiro são mais severos do que em solos secos. 


Se a palavra de ordem é não diluir a seiva dentro da folha, isso não significa que a irrigação não traz nenhum benefício na mitigação de danos provocados pela geada. Estudos têm mostrado, em outras frutíferas, que é possível amenizar as perdas pela geada ao acionar a irrigação por aspersão quando a temperatura cai a poucos graus do congelamento. Nesse caso, a água depositada na superfície do vegetal será congelada e ao se manter a 0°C forma uma película protetora das plantas, evitando o congelamento dos líquidos internos, posto que a energia que seria gasta para congelar a folha é gasta para congelar a água que está sobre ela, garantindo sua proteção. “É como se fosse o iglu, que é todo feito de gelo, mas preserva o ambiente interno aquecido”, dizem os especialistas. Por outro lado, nas plantas que não se conservarem molhadas no momento da geada, a temperatura interna pode facilmente chegar a números negativos e danificar os tecidos internos.  


É importante destacar que esse procedimento só é recomendado para manter a lavoura molhada no momento da geada. Lembrem-se que irrigar durante os dias que antecedem o fenômeno potencializa ainda mais os danos, como mostrado acima. Finalmente é preciso destacar que, para que essa estratégia funcione e dê retornos econômicos ao cafeicultor, é preciso ficar de olho nas previsões e contratar um profissional especializado em irrigação e que tenha prática com essa ferramenta. 


Estudo de caso: Queima pela geada em cafeeiro hidratado

Fazenda: Roselandia

Cidade: Carmo do Rio Claro, MG

Proprietário: Carlos Augusto Rodrigues de Melo (Presidente da Cooxupé)

Consultor Técnico: Eng. Agro. Guy Carvalho


Esse estudo de caso foi trazido pelo consultor da Fazenda Guy Carvalho. Segundo ele, a lavoura vinha sendo irrigada normalmente e, em meados de maio, no último dia de irrigação, o pivô quebrou e sem que ninguém se atentasse continuou a molhar, durante a noite toda, uma área fixa do talhão, de modo que a água que deveria cair na área inteira foi colocada somente nessa faixa em que o pivô parou de rodar.


No dia 20 de junho, veio a geada, queimando, curiosamente, apenas uma faixa contínua de plantas que precisará sofrer poda drástica, enquanto o restante das plantas apresentava apenas uma leve queima, que não precisará de nenhuma intervenção. Além do mais, nos talhões de sequeiro, que se encontram fora do campo de ação do pivô, o dano foi praticamente zero. 


Depois dessa sequência de eventos, constatou-se que a área que sofreu os danos severos da geada foi exatamente a faixa que recebeu água em excesso durante a noite toda, ficando o solo muito acima da capacidade de campo.