Cinco lições de 2021 para o Agronegócio Cafés do Brasil

10.01.2022 Autor: Celso Vegro Fonte: Celso Vegro
O novo ano começa com um conjunto de grandes aprendizados deixados pelo ano que findou. Neste conteúdo, conheça importantes lições para toda a cadeia produtiva do café.

Nessa primeira semana do ano novo, surge momento oportuno para se analisar os aprendizados que foram (ou deveriam ter sido) internalizados pelo sistema que compreende produção e consumo do café. No transcurso do ano de 2021 vários desafios se apresentaram para os agentes econômicos envolvidos nesse agronegócio. Resenhar alguns deles (no caso cinco) pretende, sobretudo, colaborar para que a agenda de decisões, para 2022, esteja relativamente conectada com tais novos conhecimentos, sem, porém, ter a pretensão em esgotá-los.

Em 2021, na primeira das lições, restou claríssimo que a agropecuária brasileira possui um de seus alicerces fincados em barro: a enorme dependência internacional dos insumos (fertilizantes e defensivos). Para agravar a situação atual, há alguns anos foram descontinuados investimentos na produção de amônia empregando o gás natural (essencial na produção de ureia) e na extração de potássio (parceira com os ermanos argentinos1). Ademais, as transnacionais do setor de agroquímicos centralizaram, no passado, a geração de novas moléculas em suas matrizes, fazendo do Brasil (campeão mundial na produção e exportação de inúmeros itens do agronegócio) território totalmente retardatário na adoção das inovações geradas nos laboratórios dessas transnacionais. Em contrapartida, há enorme esforço nacional no desenvolvimento de bioinsumos. Trata-se de agroindústria nascente, com formidável potencial de crescimento e que surge bafejada pelo incentivo da coqueluche empresarial denominada ESG (sigla para Ambiente, Social, Governança).

A segunda lição consiste na relevância que possui para a cafeicultura um eficiente e competitivo mercado de seguros rurais. Após prolongada estiagem, temperaturas médias elevadas (dia e noite) e consecutivas geadas, trouxeram danos consideráveis as lavouras de arábica, especialmente da mogiana paulista, cerrado mineiro e, de menor magnitude, no sul de minas. Levantamento efetuado nos cinturões cafeeiros paulistas concluiu que 32% da área produtiva havia sido impactada, promovendo perdas econômicas relevantes aos cafeicultores2.

Os seguros rurais, em suas várias modalidades, têm por intuito garantir a produção (parque produtivo e/ou colheita estimada). Dificilmente um cafeicultor tecnificado desembolsa menos de R$25.000,00/ha ao ano para conduzir seu ano cafeeiro, ou seja, numa produtividade média de 30 sacas/ha temos um custo unitário estimado de R$833,33/sc! Computando-se o custo da contratação de uma apólice de seguro para a lavoura, associado ao abatimento do prêmio decorrente das subvenções federal e estadual (caso paulista), o desembolso pela apólice não alcança, sequer, metade do custo de produção de uma saca! A percepção de que os seguros formam o mais infinitesimal dos custos de produção precisa estar definitivamente incorporada pelos consultores que atuam junto aos cafeicultores. Fazendo eco a essas diretivas, em São Paulo, a cafeicultura, em 2021, foi a lavoura que evoluiu na formalização de apólices de seguro (17,23%) dentre o leque de atividades agropecuárias conduzidas no território (-0,16%) (Tabela 1).


Para a terceira lição reservamos o planejamento comercial. A gestão dos custos de produção se tornou chave no alcance de rentabilidade satisfatória no corrente ano cafeeiro, ou seja, comprar bem e empregar melhor ainda (ou seja, sob critérios agronomicamente consistentes) são aprendizados que 2021 entrega para cada cafeicultor. Nesse sentido, as cooperativas que atuam no segmento têm seu papel refortalecido, na medida em que, ao exercer seu poder de barganha conquistam vantagem financeira significativa repassadas aos cafeicultores associados. Também, essas organizações coletivas possuem o aparato técnico para oferecer o melhor do conhecimento agronômico aplicado a lavoura, resultando em extração do máximo potencial que as plantas podem oferecer mediada sempre pelo andamento das incertas condições climáticas. 

O planejamento comercial não pode prescindir das operações Barter (escambo) junto aos fornecedores de insumo. O avanço da expectativa inflacionária, decorrente, tanto do risco fiscal para a qual foi empurrada nossa economia como da renhida disputa pelo mercado de votos que se avizinha, tornará o cenário incerto e volátil, favorecendo processos especulativos. Empregar a moeda café naquilo que ele depende para ser produzido é a mais conveniente e acertada das decisões comerciais.

Ainda na terceira lição uma condição essencial para a continuidade dos negócios é a confiança. O respeito aos contratos firmados constitui fundamento imprescindível para que os instrumentos de Hedge continuem ganhando maior densidade entre os cafeicultores. Reconhecer perdas sim, renegar um mercado que é garantidor de última instância da rentabilidade esperada não parece posicionamento alinhado com a postura empresarial que nossa cafeicultura já alcançou.

Passando para a quarta lição, relacionamos o esgotamento do just in time enquanto estratégia para o fluxo de suprimentos para a agroindústria de torrefação e moagem. O caos logístico ocasionado pela escassez de contêineres e de navios cargueiros, especialmente, para o Atlântico Sul promoveu uma escalada sem precedentes nos valores de locação (de contêineres e de espaço nos porões), sendo um dos itens que tem contribuído, ao lado das cotações do petróleo, no ressurgimento da inflação como elemento preocupante das economias centrais.

Esse colapso estimula os agentes econômicos (cooperativas, traders e exportadores) a inovarem na operacionalização de seus embarques. Solução aérea, volta da sacaria de juta de 60kg de café beneficiado, big bags, e outras modalidades que ainda não foram testadas ganham espaço, ainda que ínfimo, nas exportações. Quebrar a dependência do modal exclusivo de conteinerização das cargas internacionais de maior valor agregado, entra no rol das inovações que o comércio internacional estará experimentando com maior escala em 2022.

Na contraparte importadora a retomada da constituição de estoques de suprimentos se apresenta como ação inescapável. Processar “da mão para a boca” como apregoava o antigo regime comercial não apenas se tornou inviável como demonstrou ser de risco insustentável na manutenção de horizonte para os negócios.

Alcançamos então a quinta e última lição desse ano que passou. As agroindústrias de torrefação e moagem e de solubilização com fluxo de caixa comprometido pela dificuldade em repassar a alta dos custos para os varejistas, enfrentam devastadora elevação de preços de seus suprimentos (café verde, energia elétrica, embalagens, diesel). Esses custos somados são incompatíveis com a liquidez da média dessas empresas que, operando no mercado físico, possuem pouca margem de manobra para eventos como o que, atualmente, vivenciamos. Diante desse quadro, o avanço das aquisições será irrefreável, além de exigir trabalho dobrado das autoridades sanitárias mediante o “deslize” para substituição do café verde por outros produtos por vezes sequer recomendados para consumo.

Numa visão mais panorâmica, outra questão inserida dentro desse contexto consiste na perenização do arranque inicial dos marketplaces, válvula de escape para os tempos mais duros da pandemia com determinação de fechamento dos estabelecimentos comerciais. Nesse ano que se inicia, já em plena retomada das atividades econômicas, fidelizar os clientes conquistados por esse canal de consumo exigirá esforço adicional dos empresários que agregaram essa ferramenta ao escopo de suas estratégias de vendas.

O novo ano começa com um conjunto de grandes aprendizados deixados pelo ano que findou. Compete a cada agente econômico da produção, processamento ou distribuição (interna e internacional) ajustarem suas estratégias, para que 2022 transcorra outros fatos que não aqueles que 2021 nos legou.


Fonte: 

1 Ver: Mina de potássio de US$ 5 bi abandonada pela Vale atrai interesse na terra do Malbec / Acesso em: 27/12/2021

2 Ver: Estimativa de Impacto Econômico nas Lavouras Paulistas de Café Afetadas por Estiagem Prolongada Seguida de Geadas, 2021 /Acesso em:27/12/2021

* O autor agradece pelos comentários e sugestões formuladas pelo exportador Nelson Carvalhaes.


Autor:

Celso Luis Rodrigues Vegro

Eng. Agr., MS, Pesquisador Científico do IEA

celvegro@sp.gov.br 

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