É hora de pensar na uniformidade da maturação do café

23.03.2021 Autor: José Donizeti Alves Fonte: Professor José Donizeti Alves
A colheita deste ano será marcada por grande desuniformidade na maturação dos frutos, porém existem boas tecnologias para manejar a velocidade desse processo, tanto para acelerar quanto para desacelerar

Brevemente, vamos começar a colher o café. Por conta das múltiplas floradas, a colheita deste ano será marcada por grande desuniformidade na maturação dos frutos, problema que persistirá ainda por muito tempo até que o melhoramento genético tradicional e a biotecnologia desenvolvam variedades com floradas mais concentradas do que as que temos no mercado. Até lá vamos conviver com o problema, lançando mão de alternativas capazes de concentrar, artificialmente, o amadurecimento dos frutos mediante o uso de produtos capazes de interferir na síntese de etileno.

O primeiro produto comercial desenvolvido para esse fim foi o CEPA (ácido 2-cloro-etil-fosfônico), que após absorvido pela célula dos frutos se decompõe liberando etileno, que acelera a maturação. No início, houve muitas controvérsias quanto a eficiência do produto, uma vez que que a regulação da síntese de etileno depende de muitos fatores que até então não eram considerados. Com o tempo, novos conhecimentos foram adicionados. A definição da melhor época para a aplicação do produto baseada no estádio de desenvolvimento do fruto e não na sua cor, por exemplo, tornou-se a chave do sucesso dessa tecnologia dentro de padrões restritos de utilização. Exemplo disso foi a colheita mecanizada seletiva, que se beneficiou do aumento da proporção de cereja e da descoberta de novos parâmetros objetivos como a força de desprendimento dos frutos (FDF), que passou a ser utilizada para nortear a regulagem da colhedora em termos de vibração e velocidade operacional com o mínimo de agressão à planta. Com base nisso, as máquinas passaram a ter maior eficiência, chegando à colher, na maioria das vezes, em torno de 90 a 95% do café em uma única passada com muito pouco café de varrição. 

Um dos mais importantes padrões que restringe sua utilização é o número de floradas, que não deve ser superior a três, sendo que uma delas necessariamente precisa ser mais intensa. Dessa maneira, a aplicação do fitoregulador diretamente sobre o fruto de café granado irá sincronizar e acelerar o seu amadurecimento promovendo a completa maturação, ou seja, tanto do exocarpo (casca) quanto do endosperma (semente). Fica evidente, portanto, que a aplicação do produto no tempo certo, isso é, quando 90% dos frutos do terço inferior da planta estiverem granados (momento fisiologicamente mais adequado para o efeito do etileno), aumenta a quantidade de “cerejas verdadeiros”. Adicionalmente, facilita a colheita manual e principalmente a mecânica, uma vez que o etileno promove o amolecimento na região de inserção do fruto com o pedúnculo, diminuindo a FDF e deixando os frutos mais fáceis de serem colhidos.  

Tendo em vista que no momento da aplicação o alvo principal são os frutos já granados e no início de maturação da florada principal, e caso o número de floradas seja maior que três, existirão grandes proporções de frutos das demais floradas nos estádios verde, aquoso, passa, seco e até chumbinho. Nesse caso, apenas a casca dos frutos ainda não granados vai amadurecer, enquanto a semente continuará imatura, o que obviamente vai conferir à bebida características indesejáveis e um produto de qualidade inferior.

É importante destacar novamente que o uso da tecnologia de antecipar a maturação dos frutos deve ser feito dentro de padrões restritos de utilização. O etileno, por ter ação hormonal, é muito sujeito a interferências externas. Portanto, seu uso deve ser precedido por uma análise cuidadosa de um profissional qualificado. Condições estressantes para a planta, como depauperamento, deficiência mineral, temperatura alta, seca, chuva abundante, injúria física ou doença, por exemplo, podem aumentar a produção de etileno endógeno, que somado ao etileno exógeno liberado pelo CEPA pode elevar o nível total do hormônio causando uma série de danos, como desfolha, queda de frutos e passagem rápida do verde para passa/seco pulando a fase cereja.

O fator que desencadeia a maturação é a ativação da biossíntese de etileno, que no caso do café se dá entre as fases de desenvolvimento do fruto “verde” para “verde-cana”. Partindo desse princípio foi desenvolvida uma alternativa bastante eficiente e que vai em direção oposta ao uso do CEPA, que são as substâncias chamadas de antagonistas do etileno, entre elas aquelas que inibem a síntese desse hormônio retardando o início da maturação dos frutos. 

Na cafeicultura, os mais usados são o acetato de potássio e produtos à base de cobalto, que atuam inibindo a ação de enzimas chaves da rota de síntese do etileno. Segundo seu modo de ação, esses produtos não podem ser classificados como maturadores de frutos, uma vez que eles retardam a formação de etileno e desaceleram a velocidade de transição dos frutos cerejas para frutos secos. Desse modo, os frutos cerejas das primeiras floradas “esperam” os frutos verdes das floradas mais tardias granarem e amadurecerem para juntos serem colhidos. 

Concluindo, os retardadores da maturação podem entrar tranquilamente no manejo da propriedade, pois eles aumentam a percentagem de cerejas, evitam a queda de frutos nas áreas que vão ser colhidas mais tarde e diminuem o repasse. Essas relações ilustram que tecnologias inibidoras da biossíntese de etileno entre as fases verde e verde-cana alteraram o ciclo de amadurecimento do café e, desse modo, servem como ferramenta extremamente eficaz para escalonar a colheita e colher, em espaços de tempos regulares, a maior percentagem de frutos cerejas. 

Por conta da exposição ao sol, o desenvolvimento dos frutos de café na planta é bastante heterogêneo, sendo quase impossível encontrar nas lavouras plantas com padrão uniforme de maturação. Essa característica inata do Coffea arábica é que dificulta a escolha do melhor momento para a aplicação de produtos controladores da maturação e é exatamente por isso que o inibidor da maturação à base de cobalto leva vantagem sobre os indutores. Uma vez que o desenvolvimento dos frutos se vale de uma maior insolação, quando se faz o monitoramento na planta toda e se chega ao índice de 10% de frutos fisiologicamente maduros, aqueles do ponteiro e da face voltada para o sol da tarde normalmente já estão mais adiantados, maduros ou secos, prestes a caírem no chão. Portanto, se o objetivo é segurar a maturação dos frutos nas partes mais adiantadas, a dica é fazer o monitoramento nessas partes de forma separada e quando 10% dos frutos estiveram no estádio verde-cana e o restante ainda verde já entrar com a aplicação na planta toda. Outra vantagem é que, caso haja algum evento adverso ocorra após sua aplicação, que normalmente induz as plantas a produzirem etileno, ele atuará como produto antiestresse, que ao bloquear a síntese do etileno evitará o desenvolvimento de um conjunto de reações negativas ao cafeeiro, como desfolha e queda de frutos.

 “Atualmente, os produtores têm boas tecnologias para manejar a velocidade da maturação dos grãos, tanto para acelerar quanto para desacelerar o processo. Um bom planejamento de safra permite aos cafeicultores ter um ganho em qualidade média, reduzindo o café verde e de varrição com o aumento de cafés maduros”, disse Guy. 

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